quinta-feira, 20 de março de 2014

07



 - e como estão as coisas aí no brasil?
 - a tia, na mesma, sem novidades. Acredita que o papai...
***
 - nãaaaaaaao caraaaaaaaalho! Toca essa porra dessa bola filho da puta! Mas que inferno!
 - muito burro né? Podia ter tocado lá em cima e preferiu chutar!
 - sim! Tománocú!
***
 - ...e aí eu disse pra ele: não pai, não é assim que funciona!
 - jura? Você teve coragem?
 - claro que sim tia! Alguém teria que dizer pra ele algum dia...
***
 - ô buceta! Mas que juiz do caralho! Olha o que ele fez! Foi pênalti! Tá na cara que foi pênalti!
 - olha lá no replay! Foi claro!
 - a mãe desse juiz deve ter o rabo quente...
 - ...e o pai é um corno! Hahaha!
 - hahahaha!
***
 - ah sabrina, aqui tá tudo bem! A Inglaterra é linda! A gente já andou tudo por aqui!
 - e o Pedrinho?
 - Pedrinho tá bem! Tá la na sala vendo o jogo do brasil com os meninos!
 - ai tia! Como eles conseguem? Uma vez o papai...
***
 - gol!
 - GOL!
 - GOOOOOOOOOOOOOOL!
 - GOOOOOOOL POOOOORRAAAAAAAAAAAAAA!!!
***
 - ...daí o papai fez de novo e...acho q foi gol tia...então, daí o papai fez de novo e eu falei pra ele que nunca mais eu ia lá!
 - nossa! E aí?
 - a, aí que...
***
 - vou lá na cozinha pegar mais uma breja!!
***
 - você não vai ver o jogo joseli?
 - a não, tô aqui falando com a minha sobrinha pelo Skype e...
 - nossa tia, quem é esse gato??
 - Sabrina, ele ouviu!
 - põe ele aí de novo pra eu ver!
 - ela quer te ver.
 - er...oi...
 - oi! Meu! Você parece o Ben Harper!
 - RODRIGOOOO, CADÊ A BREJA CARALHO?
 - tá na hora de eu voltar. Tchau!
 - tchau gatinho!
 - Sabrina! Que papelão!
 - ai tia, manda o msn dele aí pra mim...
Um mês e meio depois, rodrigo estava super nervoso. 43 odiava nervosismo. Ele sabia o que o nervosismo fazia. Homem nervoso é pior que unha encravada, dor de barriga, sogra, segunda-feira, mulher de tpm, pneu furado, dieta, sogra, trabalhar, trânsito, sogra, furúnculo, peido no ônibus, serviço da TIM, sogra, falta de papel higiênico, papel higiênico que rasga, papel higiênico áspero e sogra. Tudo junto.
Rodrigo tomou banho, fez a barba mas não tirou tudo (deixou aquele caminhozinho de rato que emoldura o rosto), passou perfume, colocou sua linda camisa rosa, sua calça jeans preta e seu tênis de futebol – homem que é homem sempre peca em algum detalhe indumentário.
O dia estava nublado, mas não chovia. Sorte. Rodrigo caminhou cerca de 15 minutos até a estação de trem. Passou pelo córrego, pelo pontilhão, pela rua lateral ao trilho e quando finalmente chegou, já brotavam em sua têmpora algumas gotinhas de suor. “odeio esse calor dos infernos” pensou.
Comprou o bilhete, atravessou a roleta, desceu pela escada rolante e entrou no trem que já aguardava liberação para partir. Confortavelmente sentado sob a brisa do ar-condicionado, pensava. 43, ao seu lado, também. “ai senhor, por quê? Por que fizeste o nervosismo? O mundo tava lindo sem o nervosismo! adão mandava bem porque não havia nervosismo! E agora?”
Passaram-se trinta minutos. Rodrigo desceu. Caminhou até o shopping center. 43 entrou em ação: Rodrigo teve a genial ideia de comprar um presentinho para Sabrina – homens nervosos nunca sabem onde enfiar as mãos, então é bom ter algo em mãos. Comprou um livro. Nerd.
Subiu alguns lances de escada rolante e se dirigiu para a bilheteria do cinema, local marcado para o encontro. Esperou. Esperou. Esperou. Ficou impaciente. 43, ao seu lado, também. “ai senhor, por quê? Por que fizeste o atraso? O mundo tava lindo sem o atraso! eva mandava bem porque não havia atraso! E agora?”
43 ficou nervoso. Sim, anjos ficam nervosos – ou você acha que sentimentos são um privilégio dos seres humanos?
Quando 43 notou que rodrigo suava frio, passava o peso de um pé para o outro, olhava para todos os lados e não sabia onde enfiar as malditas mãos mesmo com o maldito livro que trazia consigo, ele soube: Sabrina tinha chegado. 43 não precisou procurar muito para identificar a loira de olhos claros e sorriso lindo se aproximando, perfeitamente delineada por sua calça jeans e sua blusinha cor-de-rosa. Com seu cabelo esvoaçante tipo comercial de shampoo e o capacete de moto em sua mão, irradiava no lugar uma luz ainda mais potente que aquela que iluminava o local.
“ferrou” pensou 43.
“fudeu” pensou rodrigo.
“essa moça? Essa? Deve ser um erro!” pensou 43.
“essa moça? Essa? Vou desmaiar!” pensou rodrigo.
Compraram os ingressos e foram comprar pipoca. Rodrigo pediu apenas um refrigerante para ambos. Sabrina pediu dois canudos. “ferrou” pensou 43. “fudeu” pensou rodrigo. Entraram no cinema. Sentaram. Rodrigo levantou o braço da poltrona entre eles. Sabrina abaixou o braço da poltrona entre eles e colocou o refrigerante sobre o mesmo. “fudeu” pensaram rodrigo e 43.
Ao ver rodrigo se despedir de Sabrina com um beijo no rosto e a moça montar em sua moto e ir embora, 43 pensou: “onde foi que eu errei?” para logo perceber: “o toque! Eu não toquei ninguém!”. Tarde demais.

quarta-feira, 12 de março de 2014

06



 - vai lá falar com ela Dora!
 - mas mãe, não adianta, ela não fala...
 - mesmo assim filha! Vai lá! Tenta falar com ela!
 - ta bom...
            Isabela não saía da cama há dias. Não comia e não bebia. Estava mais magra, olhos fundos, escuros, que lhe davam uma feição cadavérica. Seus olhos miravam o infinito – ela não estava nesse mundo; estava presa naquela noite, quando a encontraram suja de terra, sangue e urina, caída na sarjeta com a roupa rasgada, o rosto machucado e cheiro de álcool misturado com suor.
            Isabela não falava com ninguém. Seus pais tentaram de tudo, médico, psicólogo e até mesmo um padre.
 - bela, sou eu. Bela. Ei, bela, fala comigo.
            Renata era amiga da família. Era uma moça magra, cabelo curto, baixa, de olhos claros. Tinha um rosto doce que mascarava seu gênio difícil. Todos os dias visitava bela, falava com ela, contava seus casos e acasos mesmo que bela não demonstrasse o menor sinal de vida.
 - eu sei que você pode me ouvir bela. Eu sei que um dia você vai me responder.
 E assim passaram-se quase dois meses.
 - ... e então ele falou pra mim que já tava cansado, que não aguentava mais, que eu tava demorando muito. Saiu de cima de mim, colocou a cueca e foi pra cozinha, acredita? Eu odeio os homens, odeio! Nunca mais quero saber de homem na minha vida!
            Renata então notou uma lágrima escorrendo pela face de bela – o primeiro sinal de vida em semanas.
 - bela? Meu deus, bela! Você tava me ouvindo? Bela? O que houve? Bela, responde!
Renata sacudia bela pelos ombros, o que servia apenas para aumentar a intensidade do choro de bela, que tinha uma expressão de medo e angústia em seu rosto. Renata saiu do quarto em busca de ajuda, mas a casa estava vazia. Voltou para o quarto, onde bela ainda chorava desesperadamente.
Sem saber o que fazer, renata abraçou bela. Limpou suas lágrimas com a própria mão. Bela parecia se acalmar, sua respiração desacelerou e renata se encorajou. Pegou as mãos de bela entre as suas, apertou, aproximou seu rosto ao rosto da amiga perto o suficiente para sentir sua respiração e seu hálito quente, e beijou sua boca. Suas mãos descolaram se das mãos de bela para encontrar seu par de seios que se enrijeceram ao seu toque. Quando renata encontrou o vale entre as pernas de bela, esta já estava molhada. Renata mexeu os dedos enquanto beijava bela, para logo descer sua cabeça e beijar bela nos outros lábios. Renata se tocava ao sentir a respiração de bela aceler e ambas atingiram o clímax ao mesmo tempo.
Elas se abraçaram e dormiram, ambas com um sorriso há muito perdido e recém resgatado pela cumplicidade entre si.