terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

05


 O rapaz tomou seu banho desconfortavelmente, pois o banheiro do hostel (albergue) onde estava hospedado, era um pouco apertado – além da água que era fria e caia fracamente através do chuveiro velho. Secou-se e vestiu-se ainda no banheiro, pois no quarto que dividia com mais cinco pessoas não haveria privacidade para tal.
Saiu do banheiro carregando sua trouxa de roupa suja em uma mão e sua sacola de produtos de higiene pessoal na outra. Caminhou cerca de sete metros pelo corredor iluminado pela luz do dia que levava ao quarto onde estava. Guardou suas coisas em sua mochila e sua mochila no armário que lhe fora designado pelo atendente do hostel. Pegou seu livro, trancou a portinha com o cadeado e disse:
  • Eu vou esperar vocês lá embaixo, na sala de estar.
43 tinha tudo planejado. Como sempre, depois de observar a rotina do rapaz e da moça, ele teceu seu plano infalível – falível apenas porque ele não tinha tanta habilidade quanto inteligência. Essa era uma Missão de nível A-. O “-” significa que não seria um romance duradouro, o que não tira a importância do mesmo – também os romances curtos trazem lições marcantes para a vida dos apaixonados.
O rapaz viajava com dois amigos, e foi a estes amigos que se dirigiu antes de sair do quarto. Passou pelo mesmo corredor que também dava acesso às escadas para o andar térreo, desceu e caminhou para a sala de estar passando pela recepção e pela cozinha comunitária do hostel. Ele não fazia ideia do que estava por acontecer.
Sentou-se no sofá no lado oposto à porta de acesso ao cômodo, ignorando a televisão e ficando de olho no movimento da cozinha comunitária, que estava vazia naquele momento. Abriu seu livro e retomou a leitura, sem conseguir concentrar-se muito. A todo momento levantava os lhos para ver o que se passava na cozinha.
No momento friamente calculado, 43 sentou-se ao lado do rapaz e tocou-lhe o peito.
O rapaz sentiu seu coração acelerar, suas mãos gelaram, seus pêlos se eriçaram por todo seu corpo. Estava sentindo-se observado. Levantou seu olhar mais uma vez e congelou. Na cozinha, lhando para a sala – olhando para ele – dois olhos azuis o admiravam com um misto de surpresa e incredulidade. Ele devolveu o mesmo tipo de olhar.
  • Ei! Acorda!
  • O que foi?
  • Eu tô falando com você, presta atenção!
  • Fala, tô ouvindo...
  • A gente já tá pronto, vem! Vamos caminhar um pouco!
Um de seus amigos puxou-lhe pela mão, levantando-o do sofá. O rapaz olhou novamente para a cozinha mas ela não etava lá. Sua frustração durou pouco, porém. Ao passar pela recepção, viu a moça atrás do balcão atendendo outro hóspede. Como por milagre – o que na verdade era obra do 43 – ele pensou e agiu rapidamente:
  • Desculpa, hum, será que você podia guardar esse livro pra mim? Eu pego quando voltar.
A resposta da moça foi um tímido aceno positivo com a cabeça. Sem tirar os olhos um do outro, o rapaz entregou-lhe o livro. Se olharam por cerca de cinco segundos mais até que um dos amigos lhe puxou novamente. Saíram.
  • Cara, você viu aquela mina?
  • Sim, e também o jeito que você olhou pra ela!
  • E o jeito que ela olhou pra ele?
  • A, cala a boca, ela não me olhou de jeito nenhum!
  • É mano, ele tem razão, ela também gostou de você!
  • Se liga, uma mina daquela NUNCA vai se interessar por mim...
Conversando sobre o assunto, os três rapazes desceram a rua em direção à praia. Caminharam a tarde toda pela orla, quando resolveram entrar no mar de roupa e tudo. Ensopados, e cansados demais para fazer a caminhada de volta, resolveram tomar um ônibus. Pediram informação, caminharam até o ponto, pegaram o onibus indicado e voltaram para o hostel ao anoitecer.
  • Oi!
  • Oi...
  • Eu vim pegar meu livro!
  • A, sim, claro. Aqui está.
  • Muito obrigado.
  • Por nada.
O rapaz ia saindo da recepção derrotado por não haver conseguido puxar assunto com a moça, quando 43 prevendo o que aconteceria, aproximou-se e deu uma injeção de coragem no rapaz, que voltou atrás:
  • Meu nome é Daniel, muito prazer!
  • Eu sou a Ana. - respondeu a moça com um sorriso no rosto.
  • Sabe, eu tava pensando...você gostaria de sair pra jantar comigo hoje?
  • Puxa, me desculpa. Não vai dar. Eu trabalho até meia-noite hoje.
O rapaz vacilou. Pensou em dar as costas e desistir, mas 43 o impediu:
  • A, mas não é possível que você não tenha nem uma hora de janta!
  • Eu tenho, mas não posso sair do hostel, tenho que jantar aqui.
Decidido a desistir, o rapaz deu um passo atrás. 43, porém, foi mais rápido e falou através do rapaz (sim, os anjos têm esse poder):
  • Então está resolvido! Eu vou cozinhar para gente e nós vamos jantar juntos aqui no hostel! Que horas é seu horário de janta?
  • As nove...
  • Perfeito! Até as nove Ana!
“Meu Deus! O que foi que eu fiz? Por que eu disse aquilo? EU NÃO SEI COZINHAR! O que eu faço? Jesus amado, O QUE EU FAÇO?” O rapaz estava desesperado e 43 também. Tinha improvisado ao falar através do rapaz, e obviamente improviso não era o seu forte. Conseguira manter a conexão entre o casal, mas agora o rapaz teria de cozinhar pela primeira vez na vida.
Desnorteado, Daniel saiu à procura de um super-mercado. Caminhando, colocou a cabeça no lugar e passou a lembrar das lições que recebera de sua mãe a longo de sua infância e adolescência. “Arroz, nem pensar! Feijão, idem. Bife está fora de cogitação, e ovo frito seria primário demais. Com certeza meu hot dog seria um sucesso, mas não seria janta...Nesse caso, só me resta uma opção...”
Entrou no super-mercado sabendo o que iria comprar. Procurou o corredor correto onde achou metade do que precisaria, e pegou o resto na parte de vegetais. Confiante, comprou uma garrafa de vinho tinto e se dirigiu ao caixa. Pagou. Com duas sacolas nas mãos, voltou para o hostel com um sorriso no rosto.
  • MACARRÃO??!!
  • Sim, não sou um gênio?
  • Peraí, deixa eu ver se entendi: você chamou a mina pra jantar...
  • Sim...
  • Ela não podia ir porque sai tarde do trabalho...
  • Sim...
  • Daí você sugeriu um jantar rápido, no horário de janta dela...
  • Sim...
  • Ela disse que não poderia sair do hostel...
  • Sim...
  • Então você decidiu que cozinharia pra ela...
  • Sim...
  • E VOCÊ VAI FAZER MACARRÃO PRA ELA??!!
Apesar de revoltado com a 'imperícia flertativa' do amigo, Malaquias não pôde conter o riso. Mentira, não pôde conter a gargalhada. Riu tanto que seus olhos encheram-se de lágrimas, e uma crescente mancha escura apareceu em sua bermuda, na região genital. Apesar de constrangido no primeiro instante, Daniel juntou-se aos amigos numa gargalhada que parecia interminável.
Passada a comédia, a tragédia teve início. Orgulhoso, Daniel não deixou seus amigos ajudarem-lhe em sua empreitada. Foi para a cozinha com os ingredientes debaixo do braço. Cozinheiro experiente que era, encheu uma panela de água, colocou um fio de óleo, uma pitada de sal e o macarrão, antes da água ferver.
Concentrado no molho, pegou outra panela onde colocou óleo. Sem a ajuda de uma táboa, cortou a cebola segurando o vegetal em uma mão e usando a faca com a outra. Jogou a cebola picada na panela. Usando a mesma técnica, começou a picar o alho. Como você leitor deve saber, o alho é menor, muito menor, que a cebola. Daniel pareceu não haver percebido isso até que a faca abriu uma ferida em sua pele.
Mais pela surpresa do que pela dor, Daniel deu um pulo para o lado, onde sua mão encontrou o cabo da panela do macarrão. Com a força do impacto, a panela veio ao chão esparramando água para todos os lados – água, porque o macarrão estava completamente grudado entre si. Desesperado para recuperar o macarrão, Daniel escorregou e bateu com a cabeça na mesa. Sua última visão foi a garrafa de vinho espatifando-se no chão.
  • Daniel?
  • Nãaaaaao...
  • Daniel, acorda...
  • Nãaao mãaaaae, não queeeero...
  • Daniel, sou eu, você está bem?
  • Nãaaaao mãaaae, eu tô com febre, com gripe, com alzeimer, câncer e aids...acho que vou morrer, não dá pra ir pra escola...
  • Daniel, olha pra mim...
Com muito esforço, Daniel abriu os olhos quando notou dois lindos olhos azuis ohando para si. Abriu um sorriso, que logo foi desfeito pelo beijo que a moça lhe deu.

2 comentários:

  1. Creio que o beijo da moça de olhos azuis compensaram toda bagunça atrapalhada do Daniel.
    O 43 é meio atrapalhado, mas no fim deu certo. Nao teve o inicio - o jantar, nem o meio - a conversa durante o jantar- mas teve o final feliz! O beijo! Que era o objetivo principal. O que comprova que macarrão sempre dá certo, ainda que às avessas!
    Gostei do Daniel e da Ana!

    Luna

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  2. rsrsrs muito bom, esse 43 só não é tão desastrado quanto o Daniel. Você escreve muito bem, já li outros textos seus e gostei muito, com certeza voltarei outras vezes.

    www.eraoutravezamor.blogspot.com

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