segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

03


 O garoto já tinha quinze anos e nunca tinha beijado na boca – obviamente aquilo era um erro. Alguém lá no Departamento não estava fazendo seu trabalho direito. No mundo de hoje, um rapaz de quinze anos que nunca beijou na boca é um ser sem identidade, inexistente. Praticamente um zero à esquerda.
A moça, pelo contrário, já era bem experiente. No alto de seus dezessete anos, já tinha feito tudo que a imaginação pode criar, e justamente por isso tinha sido escolhida a dedo por 43. Sim, é assim que funciona: o cupido recebe um alvo a ser juntado e faz parte de suas atribuições selecionar o par da pessoa em questão.
Como disse, 43 era um anjo bastante inteligente. Sim, meio tonto também, mas seu problema nunca foi bolar bons planos – ele apenas não tinha muita sorte na execução dos mesmos. Talvez por ser muito ansioso, isso nunca ficou muito claro. O fato é que seus planos eram quase perfeitos, sendo o próprio 43 o elo fraco da corrente.
43 vinha seguindo meticulosamente seu plano. Não colocou os pombinhos na mesma sala desta vez, pois isso seria demorado demais e essa missão Nível B* levava uma estrela no nome por ser urgente. Rapaz e garota estudariam em classes separadas, porém vizinhas. Estudariam porque tudo estava programado para acontecer exatamente no início do ano letivo.
Logo no primeiro dia de aula, 43 tocou o peito da garota. Missões de Nível B também começam com o toque do cupido em alguma das partes, que por sua vez deve tocar a outra pessoa para estabelecer a conexão – paixão, como dizem vocês, humanos. Uma vez que as metades se tocam e a paixão se desperta, a missão está concluída.
Tocada pelo cupido, a garota passou a articular o próprio plano para seduzir o lindo garoto – como passara a ve-lo – alto, de corpo atlético, sobrancelhas grossas, olhos castanhos quase verdes e cabelos literalmente verdes. “...e além de ter o sorriso mais lindo que eu já vi, ele é rockeiro! Ele é perfeito!”. Sim, o toque do cupido tem seus efeitos.
Atenta, ela observou os movimentos da classe ao lado. Durante o intervalo, ela abordou uma colega de sala do rapaz, lhe passou o próprio telefone num pedaço de papel e pediu-lhe para entrega-lo ao garoto. Esperta, pediu para que a garota voltasse com o telefone do rapaz, afinal, ela poderia precisar dar o próximo passo também. Precisou.
Logo no segundo dia de aula, todos os alunos foram liberados. O governador do estado faleceu, o que deu a todos uma semana inteira de férias, digo, luto. O rapaz não recebeu aquela notícia com empolgação, como receberia se nada houvesse acontecido. Mas o improvável, impossível, tinha acontecido:
  • Ei, como você se chama?
  • Eu?
  • Sim, você.
  • Ricardo, por quê?
  • Uma moça da sala ao lado pediu pra te dar o telefone dela, e pegar o seu pra ela.
  • Que garota?
  • Vem, eu te mostro. Tá vendo? Aquela lá ó, no fundo da sala.
  • E aí, acorda! Vai dar o seu telefone ou não?
Ele deu o telefone para sua colega repassar para a linda moça de cabelos longos e cacheados que vestia uma camiseta do KISS e não conseguiu pensar em mais nada até o dia seguinte, quando teve duas péssimas notícias – a garota rockeira não foi para escola, e agora essa morte no lugar certo mas na hora errada.
Obviamente, tudo isso era parte do plano do 43. Missões urgentes precisam ser resolvidas rapidamente mas é imperativo que não falhem. Sim, às vezes as missões cupido falham, e aquela simplesmente não podia falhar. Pensando nisso, 43 preferiu dar ao casal uma semana de conversas telefônicas para gerar tensão. Tensão, com N de navio no meio. A outra palavra é usada em missões de Nível A e Nível E. Uma semana de tensão e os pombinhos se beijariam em um piscar de olhos na volta as aulas.
E o grande dia chegou. Depois de tanta conversa pelo telefone, o rapaz cheio de auto-confiança ficou tão ousado que nem pensou duas vezes. Ao ver a moça sentada num dos bancos do pátio do colégio, ele respirou fundo, tomou coragem e fez algo que nunca tinha feito antes: andou em direção à garota e... falou com ela.
Conversaram antes de começar a aula, depois conversaram durante todo o intervalo. O rapaz sentia-se à vontade com a garota. Talvez à vontade até demais. Sim, mulheres gostam de homens inteligentes, mas no fundo o objetivo de toda mulher é sempre o mesmo: elas querem ser beijadas – e aquele papo sobre comunismo já estava se estendendo demais e o plano de 43 indo por água abaixo.
Terminada a aula, a garota já estava tensa demais. Tensão é a palavra. Daquele dia não passava, era questão de honra. Ela ia beijar aquele rapaz idiota, digo, lindo, custasse o que custasse. Sem dar-se por vencida, ela decidiu acompanha-lo em seu caminho para casa, enquanto ficaria à espreita esperando pela oportunidade de acabar com aquilo.
  • ...e então eu botei o pé em toda aquela lama misturada com cocô, acredita? - seguia o rapaz contando a história de sua vida.
  • A não, mesmo? Que nojo! - seguia a garota fingindo-se interessada.
  • Sim! E o pior você não sabe! Eu prendi meu pé em alguma coisa, perdi o equilíbrio e caí de cara naquela meleca toda!
“Será que ele sabe que eu tô afim de beijar na boca? Sério, talvez ele ainda não tenha percebido. Isso é papo de quem quer beijar na boca? Será que ele tá fazendo tudo isso pra eu desistir? Só pode ser, isso não é papo de quem quer beijar na boca. A não, não acredito nisso! Não vou aceitar um não como resposta!” pensou a tensa garota, até que sua paciência se acabou.
De surpresa, sem olhar para o lado, ela agarrou a mão do rapaz e puxou-o para junto de si. De olhos fechados, beijou-lhe apaixonadamente. Virou o rosto de um lado para o outro, as mãos na parte de trás da cabeça do rapaz, que parecia um pouco espantado no início, mas logo se entregou e curtiu o momento.
Quando abriu os olhos, sorrindo, apaixonada, ela não entendeu nada. Rapidamente desvencilhou-se da pessoa à frente enquanto limpava a própria boca. Olhou ao seu redor e seus olhos cruzaram-se com os do rapaz que, atônito, segurava as pontas do cadarço que amarrava quando sua garota beijou outro cara no ponto de ônibus.

Um comentário:

  1. Surpreendente!
    Creio que o Cupido 43 está tão ansioso quanto as suas missões em unir meninas afoitas a meninos tímidos.
    Muito bom o conto pelo desfecho cheio de surpresa.
    Vai em frente 43!

    Luna

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