sábado, 9 de fevereiro de 2013

02


 Isabella tinha 13 anos. Era uma mocinha magrela, alta para sua faixa etária e mesmo para uma garota. Tinha olhos castanhos quase verdes, cabelos longos e cacheados, sobrancelhas grossas e a boca grande. Ainda que desconfiasse disso, era uma mocinha linda. Não era muito vaidosa, mas ainda assim, linda.
Naquela tarde, ela tinha decidido: ia resolver o grande problema de sua vida. “De hoje não pode passar. Não pode. Todas as minhas amigas dizem que eu devo fazer isso, que vai ser legal, que eu vou gostar. Elas dizem que não é nada de outro planeta, que não é difícil, pelo contrário, qualquer uma pode fazer...” pensava.
Voltou da escola, deixou sua mochila no quarto e foi para a cozinha almoçar com sua irmã. Sua mãe, assim como seu pai, por trabalharem o dia inteiro, não estavam em casa aquela hora e não voltariam tão cedo. Isso não era problema, porém, pois elas já estavam habituadas a esquentarem a própria comida. Na verdade, naquele dia, o fato dos pais não estarem em casa era perfeito.
“Papai e mamãe nunca vão saber que eu saí de casa. Já combinei com a Dora, ela não vai dizer nada. Eu vou rapidinho até a a rua de baixo e pronto. Está feito.” pensava Isabella enquanto almoçava. O plano, tecido com ajuda de Isadora, a irmã, era perfeito. Não tinha como dar errado e não tinha como ser descoberto.
Terminou sua refeição, lavou a louça e foi tomar banho – um banho demorado, que durou cerca de uma hora. Saiu do banheiro, foi para o quarto a passos lentos com a toalha enrolada no corpo. Andou em direção à sua cama, tirou a toalha e abriu a porta do guarda-roupa para decidir o que vestir. Isadora, deitada em sua cama, puxou assunto:
  • Ei, Bela, tá decidida ainda? Vai fazer isso mesmo?
  • Sim Dora, eu estou decidida, vou fazer!
  • Tem certeza Bela? Sabe, você não precisa fazer isso só porque...
  • Vou fazer porque quero fazer e ponto final!
Isabela ainda não tinha certeza se aquela era a hora certa de fazer o que iria fazer. Na verdade, em sua cabeça, treze anos era cedo demais. O problema era não ter certeza se a própria maneira de pensar era a maneira mais correta, quando todas as suas amigas já tinham feito, e muito antes.
  • Tudo bem – disse Isadora – então vai! Você sabe que pode contar comigo!
  • Eu sei, obrigada.
  • Não esquece de voltar logo, papai ou mamãe podem chegar mais cedo e...
  • Eu não vou demorar, vai ser rápido.
  • E não esquece de me contar tudo depois!
  • Não vou esquecer.
Isabela vestiu uma blusinha rosa que geralmente usava no natal, por ser uma de suas preferidas. Colocou um shortinho jeans e sandálias do tipo rasteirinha. Não teria se arrumado tanto, mas preferiu ouvir o conselho de suas amigas. Tudo o que tinha feito ultimamente era seguir o conselho de suas amigas.
Pegou seu telefone celular e mandou uma mensagem de texto: “me econtre na esquina da sua rua em 5 minutos, pode ser?”. Não esperou pela resposta. Pegou sua bolsinha, se despediu da irmã – que lhe desejou boa sorte novamente – e saiu de casa. Ao passar pelo portão, seu coração deu sinal de vida – sua ansiedade veio à tona.
Ao descer a rua de casa, notou que suas mãos suavam e suas pernas tremiam ligeiramente. Apesar de não perceber, caminhava rapidamente, quase correndo. Não estava ansiosa pelo que iria acontecer, apenas queria que tudo aquilo acabasse logo. Ela não estava muito contente com aquela situação, mas seria um alívio uma vez que tivesse feito o que tinha de fazer.
Chegou na esquina onde tinha marcado e logo avistou o vulto que vinha em sua direção. Era ele, ela tinha certeza, assim como estava segura que ele viria. “Ele gosta muito de você, e você sabe. E você também gosta dele, não vem com esse papo de que são apenas amigos, vocês passam o tempo todo grudados aqui na escola!” diziam suas amigas. “Deixa de ser boba, aproveita que ele gosta de você e vai fundo. Vai ser ainda melhor fazer isso com quem você gosta”. Sim, ela gostava dele, mas não daquela maneira. Eles eram amigos. Ela se sentia ainda muito jovem para gostar de alguém e mais, para fazer o que ia fazer.
  • Oi Bela.
  • Oi João.
  • Eu recebi a sua mensagem.
  • Eu sei.
  • Por que você me chamou?
  • Eu...é que...
  • O que? Fala, aconteceu alguma coisa?
  • Não...é que...eu...eu queria...
  • O que, pode falar...
Ela não falou. Chegou perto do rapaz e aproximou sua boca da boca dele. Encostou seus lábios nos lábios dele, quando sentiu uma coisa viscosa invadindo sua boca e passeando por sua genviva, dentes e lígua. Aquela coisa conseguiu, sabe Deus como, tocar até mesmo o céu de sua boca. Tinha tanta saliva no meio daquele movimento melado que escorria pelo canto de sua boca. Durante o ato molhado, o rapaz lhe abraçou e lhe apertou tanto que ela perdeu o ar. Na tentativa de respirar, engasgou naquele mundo de saliva e, com sua boca colada na dele e sua língua presa por aquilo que mais parecia um peixe fora d'água a se debater dentro de sua boca, tossiu. Tossiu tanto que um pouquinho de catarro se desprendeu de sua garganta e foi parar no nariz do rapaz. Seus olhos encheram-se de lágrimas.
Chorando, ela deu as costas ao rapaz e voltou correndo para casa sem olhar para os lados. Estava com vergonha dele, das pessoas e, acima de tudo, morria de vergonha de si mesma.

Um comentário:

  1. Pois é...A Bella percebeu que cada um tem seu tempo e que pular etapas decepciona.
    Mas a Bella vai conhecer o sabor do primeiro beijo no momento em que conhecer o menino que faça o coração dela bater diferente.
    Conto envolvente!

    Luna

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