terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

05


 O rapaz tomou seu banho desconfortavelmente, pois o banheiro do hostel (albergue) onde estava hospedado, era um pouco apertado – além da água que era fria e caia fracamente através do chuveiro velho. Secou-se e vestiu-se ainda no banheiro, pois no quarto que dividia com mais cinco pessoas não haveria privacidade para tal.
Saiu do banheiro carregando sua trouxa de roupa suja em uma mão e sua sacola de produtos de higiene pessoal na outra. Caminhou cerca de sete metros pelo corredor iluminado pela luz do dia que levava ao quarto onde estava. Guardou suas coisas em sua mochila e sua mochila no armário que lhe fora designado pelo atendente do hostel. Pegou seu livro, trancou a portinha com o cadeado e disse:
  • Eu vou esperar vocês lá embaixo, na sala de estar.
43 tinha tudo planejado. Como sempre, depois de observar a rotina do rapaz e da moça, ele teceu seu plano infalível – falível apenas porque ele não tinha tanta habilidade quanto inteligência. Essa era uma Missão de nível A-. O “-” significa que não seria um romance duradouro, o que não tira a importância do mesmo – também os romances curtos trazem lições marcantes para a vida dos apaixonados.
O rapaz viajava com dois amigos, e foi a estes amigos que se dirigiu antes de sair do quarto. Passou pelo mesmo corredor que também dava acesso às escadas para o andar térreo, desceu e caminhou para a sala de estar passando pela recepção e pela cozinha comunitária do hostel. Ele não fazia ideia do que estava por acontecer.
Sentou-se no sofá no lado oposto à porta de acesso ao cômodo, ignorando a televisão e ficando de olho no movimento da cozinha comunitária, que estava vazia naquele momento. Abriu seu livro e retomou a leitura, sem conseguir concentrar-se muito. A todo momento levantava os lhos para ver o que se passava na cozinha.
No momento friamente calculado, 43 sentou-se ao lado do rapaz e tocou-lhe o peito.
O rapaz sentiu seu coração acelerar, suas mãos gelaram, seus pêlos se eriçaram por todo seu corpo. Estava sentindo-se observado. Levantou seu olhar mais uma vez e congelou. Na cozinha, lhando para a sala – olhando para ele – dois olhos azuis o admiravam com um misto de surpresa e incredulidade. Ele devolveu o mesmo tipo de olhar.
  • Ei! Acorda!
  • O que foi?
  • Eu tô falando com você, presta atenção!
  • Fala, tô ouvindo...
  • A gente já tá pronto, vem! Vamos caminhar um pouco!
Um de seus amigos puxou-lhe pela mão, levantando-o do sofá. O rapaz olhou novamente para a cozinha mas ela não etava lá. Sua frustração durou pouco, porém. Ao passar pela recepção, viu a moça atrás do balcão atendendo outro hóspede. Como por milagre – o que na verdade era obra do 43 – ele pensou e agiu rapidamente:
  • Desculpa, hum, será que você podia guardar esse livro pra mim? Eu pego quando voltar.
A resposta da moça foi um tímido aceno positivo com a cabeça. Sem tirar os olhos um do outro, o rapaz entregou-lhe o livro. Se olharam por cerca de cinco segundos mais até que um dos amigos lhe puxou novamente. Saíram.
  • Cara, você viu aquela mina?
  • Sim, e também o jeito que você olhou pra ela!
  • E o jeito que ela olhou pra ele?
  • A, cala a boca, ela não me olhou de jeito nenhum!
  • É mano, ele tem razão, ela também gostou de você!
  • Se liga, uma mina daquela NUNCA vai se interessar por mim...
Conversando sobre o assunto, os três rapazes desceram a rua em direção à praia. Caminharam a tarde toda pela orla, quando resolveram entrar no mar de roupa e tudo. Ensopados, e cansados demais para fazer a caminhada de volta, resolveram tomar um ônibus. Pediram informação, caminharam até o ponto, pegaram o onibus indicado e voltaram para o hostel ao anoitecer.
  • Oi!
  • Oi...
  • Eu vim pegar meu livro!
  • A, sim, claro. Aqui está.
  • Muito obrigado.
  • Por nada.
O rapaz ia saindo da recepção derrotado por não haver conseguido puxar assunto com a moça, quando 43 prevendo o que aconteceria, aproximou-se e deu uma injeção de coragem no rapaz, que voltou atrás:
  • Meu nome é Daniel, muito prazer!
  • Eu sou a Ana. - respondeu a moça com um sorriso no rosto.
  • Sabe, eu tava pensando...você gostaria de sair pra jantar comigo hoje?
  • Puxa, me desculpa. Não vai dar. Eu trabalho até meia-noite hoje.
O rapaz vacilou. Pensou em dar as costas e desistir, mas 43 o impediu:
  • A, mas não é possível que você não tenha nem uma hora de janta!
  • Eu tenho, mas não posso sair do hostel, tenho que jantar aqui.
Decidido a desistir, o rapaz deu um passo atrás. 43, porém, foi mais rápido e falou através do rapaz (sim, os anjos têm esse poder):
  • Então está resolvido! Eu vou cozinhar para gente e nós vamos jantar juntos aqui no hostel! Que horas é seu horário de janta?
  • As nove...
  • Perfeito! Até as nove Ana!
“Meu Deus! O que foi que eu fiz? Por que eu disse aquilo? EU NÃO SEI COZINHAR! O que eu faço? Jesus amado, O QUE EU FAÇO?” O rapaz estava desesperado e 43 também. Tinha improvisado ao falar através do rapaz, e obviamente improviso não era o seu forte. Conseguira manter a conexão entre o casal, mas agora o rapaz teria de cozinhar pela primeira vez na vida.
Desnorteado, Daniel saiu à procura de um super-mercado. Caminhando, colocou a cabeça no lugar e passou a lembrar das lições que recebera de sua mãe a longo de sua infância e adolescência. “Arroz, nem pensar! Feijão, idem. Bife está fora de cogitação, e ovo frito seria primário demais. Com certeza meu hot dog seria um sucesso, mas não seria janta...Nesse caso, só me resta uma opção...”
Entrou no super-mercado sabendo o que iria comprar. Procurou o corredor correto onde achou metade do que precisaria, e pegou o resto na parte de vegetais. Confiante, comprou uma garrafa de vinho tinto e se dirigiu ao caixa. Pagou. Com duas sacolas nas mãos, voltou para o hostel com um sorriso no rosto.
  • MACARRÃO??!!
  • Sim, não sou um gênio?
  • Peraí, deixa eu ver se entendi: você chamou a mina pra jantar...
  • Sim...
  • Ela não podia ir porque sai tarde do trabalho...
  • Sim...
  • Daí você sugeriu um jantar rápido, no horário de janta dela...
  • Sim...
  • Ela disse que não poderia sair do hostel...
  • Sim...
  • Então você decidiu que cozinharia pra ela...
  • Sim...
  • E VOCÊ VAI FAZER MACARRÃO PRA ELA??!!
Apesar de revoltado com a 'imperícia flertativa' do amigo, Malaquias não pôde conter o riso. Mentira, não pôde conter a gargalhada. Riu tanto que seus olhos encheram-se de lágrimas, e uma crescente mancha escura apareceu em sua bermuda, na região genital. Apesar de constrangido no primeiro instante, Daniel juntou-se aos amigos numa gargalhada que parecia interminável.
Passada a comédia, a tragédia teve início. Orgulhoso, Daniel não deixou seus amigos ajudarem-lhe em sua empreitada. Foi para a cozinha com os ingredientes debaixo do braço. Cozinheiro experiente que era, encheu uma panela de água, colocou um fio de óleo, uma pitada de sal e o macarrão, antes da água ferver.
Concentrado no molho, pegou outra panela onde colocou óleo. Sem a ajuda de uma táboa, cortou a cebola segurando o vegetal em uma mão e usando a faca com a outra. Jogou a cebola picada na panela. Usando a mesma técnica, começou a picar o alho. Como você leitor deve saber, o alho é menor, muito menor, que a cebola. Daniel pareceu não haver percebido isso até que a faca abriu uma ferida em sua pele.
Mais pela surpresa do que pela dor, Daniel deu um pulo para o lado, onde sua mão encontrou o cabo da panela do macarrão. Com a força do impacto, a panela veio ao chão esparramando água para todos os lados – água, porque o macarrão estava completamente grudado entre si. Desesperado para recuperar o macarrão, Daniel escorregou e bateu com a cabeça na mesa. Sua última visão foi a garrafa de vinho espatifando-se no chão.
  • Daniel?
  • Nãaaaaao...
  • Daniel, acorda...
  • Nãaao mãaaaae, não queeeero...
  • Daniel, sou eu, você está bem?
  • Nãaaaao mãaaae, eu tô com febre, com gripe, com alzeimer, câncer e aids...acho que vou morrer, não dá pra ir pra escola...
  • Daniel, olha pra mim...
Com muito esforço, Daniel abriu os olhos quando notou dois lindos olhos azuis ohando para si. Abriu um sorriso, que logo foi desfeito pelo beijo que a moça lhe deu.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

04



  • Anda logo Dora, a gente tá atrasada!
  • Calma Bela, tô secando meu cabelo!
  • Já faz meia hora que você tá secando esse cabelo!
  • A, não enche o saco Bela!
Isabella tinha quinze anos e era a primeira vez que veria um bloco de rua no carnaval. A garota estava muito empolgada. Tinha marcado com as amigas as 20 horas, mas já estava pronta desde as 19. Já eram quase 20:30 e sua irmã ainda secava o cabelo, depois teria de escolher a roupa, se vestir e se maquiar. Iriam atrasar muito, como sempre.
  • Já chega Dora! Vai com o vestido rosa mesmo!
  • Mas e o branquinho? O branquinho também é lindo!
  • Tá bem, veste o branquinho então, mas ANDA LOGO!
Isadora vestiu o rosa, se maquiou, colocou a sandália e ficou pronta para sair – com uma hora de atraso. Discutindo, as irmãs foram descendo a rua de casa até a casa da Flávia, onde encontrariam as meninas. Para sorte de Isadora – que não perdeu a oportunidade de provocar Isabella – elas não eram as únicas atrasadas, faltava ainda a Clara. Todas prontas, foram para a rua do Bloco.
A noite estava bastante agradável. A temperatura girava em torno de 27 graus, o céu estava lindo e estrelado. O vento soprava forte para esvoaçar o longo cabelo cacheado de Isabella, mas não forte o suficiente para fazer subir sua saia. Era uma noite perfeita para se divertir com suas amigas e, mais do que isso, para uma primeira festa de carnaval.
A rua era um mar de gente, e o som da bateria, ensurdecedor. Todos pulavam e sorriam freneticamente, de uma maneira que Isabella nunca tinha visto antes. Para onde olhava, ela via gente se beijando – homem com mulher, mulher com mulher e homem com homem. Até beijo triplo ela pôde ver.
  • Toma Bela!
  • A não, eu não quero beber...
  • Por que não? Qual o problema?
  • A, não sei, não quero...
  • É carnaval Bela, aproveita vai!
Isabella bebeu. De fato, ela não queria, mas não era do tipo de pessoa que sabia dizer não para as amigas. Duas latinhas de cerveja foram suficientes para deixa-la tonta. Não sentia o próprio peso, era como se caminhasse na lua. Seus movimentos pareciam rápidos demais, em contraste com o mundo ao seu redor que parecia em câmera lenta.
  • Bela, aquele cara não tira os olhos de você!
  • É, eu já percebi.
  • Vai lá dar um beijo nele!
  • Nem pensar!
Como se pudesse ouvir o diálogo entre as garotas, o rapaz se aproximou. Sem nenhuma palavra, puxou Isabella pela cintura tentou dar-lhe um beijo. A garota, imediatamente, o empurrou e desvencilhou-se dele. O rapaz, bêbado, caiu no chão. Levantou com alguma dificuldade, lançou um olhar furioso em direção a moça e se perdeu na multidão.
  • Bela, por que você fez isso?
  • Ele tentou me beijar a força!
  • Não foi bem assim Bela! É carnaval, as pessoas estão aqui para beijar!
  • Eu não quero beijar!
Isabella teve uma péssima experiência dois anos antes, ao dar aquele que foi seu primeiro e único beijo até então. Desde aquele dia, nunca mais beijou ninguém, nem se envolveu com ninguém. Sequer se apaixonou por alguém. Nada. Ouvia as histórias de sua irmã com seu 'quase-namorado' mas nada acontecia consigo mesma.
Algumas horas – e cervejas – depois, Isabella estava cansada. Chamou sua irmã para voltar para casa, mas Isadora tinha conseguido um parzinho e não estava em seus planos voltar 'tão cedo'. Isabella precisava muito ir ao banheiro. Sem escolha, foi andando de volta para casa, a cabeça girando e o corpo dificilmente respondendo a seus comandos.
Assustada, ela olhou para trás. Pensou ter ouvido um barulho, talvez o som de passos. Fixou os olhos num único ponto na tentativa de ajustar o foco de sua visão, mas bêbada como estava, teve sua tentativa frustrada. Aguçou os ouvidos, mas não ouviu nada. Permaneceu ali, em estado de alerta, por aproximadamente dois minutos. A rua estava escura e completamente deserta. Esperou mais um pouco. Nada.
“Eu sabia que não deveria beber. Como eu sou boba! Nunca tinha bebido tanto antes, nunca tinha ficado tonta desse jeito. Eu tô tão ruim que já tô ouvindo coisas! E essa vontade de fazer xixi?Parece que minha bexiga vai explodir. Droga! Nessas horas eu gostaria de ser homem, poder fazer xixi em pé...”
Seus pensamentos foram interrompidos por duas mãos ferro que taparam sua boca e puxaram seu cabelo para trás. Desesperada, sem entender muito bem o que estava acontecendo, ouviu uma voz sussurrar em seu ouvido:
  • Se você fizer algum barulho, se você gritar, eu te mato!
Sentiu uma pancada nas costas, na altura dos rins. Uma dor insuportável tomou conta de todo seu corpo. Outra pancada, e suas pernas não aguentaram o peso de seu corpo. Caiu. No chão, sentiu o peso do assaltante sobre seu corpo, quando foi golpeada duas vezes no rosto. Sua boca começou a sangrar.
  • Então você achou que não ia me beijar, não é?
Sentiu sua boca invadida pela língua do outro. Tentou se desvencilhar, mas seu corpo entorpecido pela bebida e pela dor dos golpes, não lhe respondia mais. Sentiu o rapaz meter a mão debaixo de sua saia e tirar sua calcinha. Desesperada, ela mordeu o lábio do rapaz numa tentativa frustrada de se livrar.
O rapaz, por sua vez, ficou ainda mais furioso. Violentamente, virou o corpo de bela e a colocou deitada de bruços. Desavivelou o próprio cinto, abaixou as calças e a roupa de baixo. Deu mais um golpe na cabeça de Bela para mante-la sem ação, levantou um pouco o quadril da moça, agarrou fortemente seu longo cabelo cacheado e penetrou-lhe de uma vez.
Bela sentiu como se uma faca em chamas tivesse penetrado sua carne. A dor era tão intensa que seu corpo, mesmo sob o peso do rapaz, tinha espasmos. Chorou. Um choro silencioso, de quem está entregue e completamente humilhado. Não sabe quanto tempo o rapaz ficou em cima de si, mas aquele momento para ela durou uma eternidade. Quando finalmente ouviu-o afivelando o cinto, Isabella urinou-se e desmaiou.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

03


 O garoto já tinha quinze anos e nunca tinha beijado na boca – obviamente aquilo era um erro. Alguém lá no Departamento não estava fazendo seu trabalho direito. No mundo de hoje, um rapaz de quinze anos que nunca beijou na boca é um ser sem identidade, inexistente. Praticamente um zero à esquerda.
A moça, pelo contrário, já era bem experiente. No alto de seus dezessete anos, já tinha feito tudo que a imaginação pode criar, e justamente por isso tinha sido escolhida a dedo por 43. Sim, é assim que funciona: o cupido recebe um alvo a ser juntado e faz parte de suas atribuições selecionar o par da pessoa em questão.
Como disse, 43 era um anjo bastante inteligente. Sim, meio tonto também, mas seu problema nunca foi bolar bons planos – ele apenas não tinha muita sorte na execução dos mesmos. Talvez por ser muito ansioso, isso nunca ficou muito claro. O fato é que seus planos eram quase perfeitos, sendo o próprio 43 o elo fraco da corrente.
43 vinha seguindo meticulosamente seu plano. Não colocou os pombinhos na mesma sala desta vez, pois isso seria demorado demais e essa missão Nível B* levava uma estrela no nome por ser urgente. Rapaz e garota estudariam em classes separadas, porém vizinhas. Estudariam porque tudo estava programado para acontecer exatamente no início do ano letivo.
Logo no primeiro dia de aula, 43 tocou o peito da garota. Missões de Nível B também começam com o toque do cupido em alguma das partes, que por sua vez deve tocar a outra pessoa para estabelecer a conexão – paixão, como dizem vocês, humanos. Uma vez que as metades se tocam e a paixão se desperta, a missão está concluída.
Tocada pelo cupido, a garota passou a articular o próprio plano para seduzir o lindo garoto – como passara a ve-lo – alto, de corpo atlético, sobrancelhas grossas, olhos castanhos quase verdes e cabelos literalmente verdes. “...e além de ter o sorriso mais lindo que eu já vi, ele é rockeiro! Ele é perfeito!”. Sim, o toque do cupido tem seus efeitos.
Atenta, ela observou os movimentos da classe ao lado. Durante o intervalo, ela abordou uma colega de sala do rapaz, lhe passou o próprio telefone num pedaço de papel e pediu-lhe para entrega-lo ao garoto. Esperta, pediu para que a garota voltasse com o telefone do rapaz, afinal, ela poderia precisar dar o próximo passo também. Precisou.
Logo no segundo dia de aula, todos os alunos foram liberados. O governador do estado faleceu, o que deu a todos uma semana inteira de férias, digo, luto. O rapaz não recebeu aquela notícia com empolgação, como receberia se nada houvesse acontecido. Mas o improvável, impossível, tinha acontecido:
  • Ei, como você se chama?
  • Eu?
  • Sim, você.
  • Ricardo, por quê?
  • Uma moça da sala ao lado pediu pra te dar o telefone dela, e pegar o seu pra ela.
  • Que garota?
  • Vem, eu te mostro. Tá vendo? Aquela lá ó, no fundo da sala.
  • E aí, acorda! Vai dar o seu telefone ou não?
Ele deu o telefone para sua colega repassar para a linda moça de cabelos longos e cacheados que vestia uma camiseta do KISS e não conseguiu pensar em mais nada até o dia seguinte, quando teve duas péssimas notícias – a garota rockeira não foi para escola, e agora essa morte no lugar certo mas na hora errada.
Obviamente, tudo isso era parte do plano do 43. Missões urgentes precisam ser resolvidas rapidamente mas é imperativo que não falhem. Sim, às vezes as missões cupido falham, e aquela simplesmente não podia falhar. Pensando nisso, 43 preferiu dar ao casal uma semana de conversas telefônicas para gerar tensão. Tensão, com N de navio no meio. A outra palavra é usada em missões de Nível A e Nível E. Uma semana de tensão e os pombinhos se beijariam em um piscar de olhos na volta as aulas.
E o grande dia chegou. Depois de tanta conversa pelo telefone, o rapaz cheio de auto-confiança ficou tão ousado que nem pensou duas vezes. Ao ver a moça sentada num dos bancos do pátio do colégio, ele respirou fundo, tomou coragem e fez algo que nunca tinha feito antes: andou em direção à garota e... falou com ela.
Conversaram antes de começar a aula, depois conversaram durante todo o intervalo. O rapaz sentia-se à vontade com a garota. Talvez à vontade até demais. Sim, mulheres gostam de homens inteligentes, mas no fundo o objetivo de toda mulher é sempre o mesmo: elas querem ser beijadas – e aquele papo sobre comunismo já estava se estendendo demais e o plano de 43 indo por água abaixo.
Terminada a aula, a garota já estava tensa demais. Tensão é a palavra. Daquele dia não passava, era questão de honra. Ela ia beijar aquele rapaz idiota, digo, lindo, custasse o que custasse. Sem dar-se por vencida, ela decidiu acompanha-lo em seu caminho para casa, enquanto ficaria à espreita esperando pela oportunidade de acabar com aquilo.
  • ...e então eu botei o pé em toda aquela lama misturada com cocô, acredita? - seguia o rapaz contando a história de sua vida.
  • A não, mesmo? Que nojo! - seguia a garota fingindo-se interessada.
  • Sim! E o pior você não sabe! Eu prendi meu pé em alguma coisa, perdi o equilíbrio e caí de cara naquela meleca toda!
“Será que ele sabe que eu tô afim de beijar na boca? Sério, talvez ele ainda não tenha percebido. Isso é papo de quem quer beijar na boca? Será que ele tá fazendo tudo isso pra eu desistir? Só pode ser, isso não é papo de quem quer beijar na boca. A não, não acredito nisso! Não vou aceitar um não como resposta!” pensou a tensa garota, até que sua paciência se acabou.
De surpresa, sem olhar para o lado, ela agarrou a mão do rapaz e puxou-o para junto de si. De olhos fechados, beijou-lhe apaixonadamente. Virou o rosto de um lado para o outro, as mãos na parte de trás da cabeça do rapaz, que parecia um pouco espantado no início, mas logo se entregou e curtiu o momento.
Quando abriu os olhos, sorrindo, apaixonada, ela não entendeu nada. Rapidamente desvencilhou-se da pessoa à frente enquanto limpava a própria boca. Olhou ao seu redor e seus olhos cruzaram-se com os do rapaz que, atônito, segurava as pontas do cadarço que amarrava quando sua garota beijou outro cara no ponto de ônibus.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

02


 Isabella tinha 13 anos. Era uma mocinha magrela, alta para sua faixa etária e mesmo para uma garota. Tinha olhos castanhos quase verdes, cabelos longos e cacheados, sobrancelhas grossas e a boca grande. Ainda que desconfiasse disso, era uma mocinha linda. Não era muito vaidosa, mas ainda assim, linda.
Naquela tarde, ela tinha decidido: ia resolver o grande problema de sua vida. “De hoje não pode passar. Não pode. Todas as minhas amigas dizem que eu devo fazer isso, que vai ser legal, que eu vou gostar. Elas dizem que não é nada de outro planeta, que não é difícil, pelo contrário, qualquer uma pode fazer...” pensava.
Voltou da escola, deixou sua mochila no quarto e foi para a cozinha almoçar com sua irmã. Sua mãe, assim como seu pai, por trabalharem o dia inteiro, não estavam em casa aquela hora e não voltariam tão cedo. Isso não era problema, porém, pois elas já estavam habituadas a esquentarem a própria comida. Na verdade, naquele dia, o fato dos pais não estarem em casa era perfeito.
“Papai e mamãe nunca vão saber que eu saí de casa. Já combinei com a Dora, ela não vai dizer nada. Eu vou rapidinho até a a rua de baixo e pronto. Está feito.” pensava Isabella enquanto almoçava. O plano, tecido com ajuda de Isadora, a irmã, era perfeito. Não tinha como dar errado e não tinha como ser descoberto.
Terminou sua refeição, lavou a louça e foi tomar banho – um banho demorado, que durou cerca de uma hora. Saiu do banheiro, foi para o quarto a passos lentos com a toalha enrolada no corpo. Andou em direção à sua cama, tirou a toalha e abriu a porta do guarda-roupa para decidir o que vestir. Isadora, deitada em sua cama, puxou assunto:
  • Ei, Bela, tá decidida ainda? Vai fazer isso mesmo?
  • Sim Dora, eu estou decidida, vou fazer!
  • Tem certeza Bela? Sabe, você não precisa fazer isso só porque...
  • Vou fazer porque quero fazer e ponto final!
Isabela ainda não tinha certeza se aquela era a hora certa de fazer o que iria fazer. Na verdade, em sua cabeça, treze anos era cedo demais. O problema era não ter certeza se a própria maneira de pensar era a maneira mais correta, quando todas as suas amigas já tinham feito, e muito antes.
  • Tudo bem – disse Isadora – então vai! Você sabe que pode contar comigo!
  • Eu sei, obrigada.
  • Não esquece de voltar logo, papai ou mamãe podem chegar mais cedo e...
  • Eu não vou demorar, vai ser rápido.
  • E não esquece de me contar tudo depois!
  • Não vou esquecer.
Isabela vestiu uma blusinha rosa que geralmente usava no natal, por ser uma de suas preferidas. Colocou um shortinho jeans e sandálias do tipo rasteirinha. Não teria se arrumado tanto, mas preferiu ouvir o conselho de suas amigas. Tudo o que tinha feito ultimamente era seguir o conselho de suas amigas.
Pegou seu telefone celular e mandou uma mensagem de texto: “me econtre na esquina da sua rua em 5 minutos, pode ser?”. Não esperou pela resposta. Pegou sua bolsinha, se despediu da irmã – que lhe desejou boa sorte novamente – e saiu de casa. Ao passar pelo portão, seu coração deu sinal de vida – sua ansiedade veio à tona.
Ao descer a rua de casa, notou que suas mãos suavam e suas pernas tremiam ligeiramente. Apesar de não perceber, caminhava rapidamente, quase correndo. Não estava ansiosa pelo que iria acontecer, apenas queria que tudo aquilo acabasse logo. Ela não estava muito contente com aquela situação, mas seria um alívio uma vez que tivesse feito o que tinha de fazer.
Chegou na esquina onde tinha marcado e logo avistou o vulto que vinha em sua direção. Era ele, ela tinha certeza, assim como estava segura que ele viria. “Ele gosta muito de você, e você sabe. E você também gosta dele, não vem com esse papo de que são apenas amigos, vocês passam o tempo todo grudados aqui na escola!” diziam suas amigas. “Deixa de ser boba, aproveita que ele gosta de você e vai fundo. Vai ser ainda melhor fazer isso com quem você gosta”. Sim, ela gostava dele, mas não daquela maneira. Eles eram amigos. Ela se sentia ainda muito jovem para gostar de alguém e mais, para fazer o que ia fazer.
  • Oi Bela.
  • Oi João.
  • Eu recebi a sua mensagem.
  • Eu sei.
  • Por que você me chamou?
  • Eu...é que...
  • O que? Fala, aconteceu alguma coisa?
  • Não...é que...eu...eu queria...
  • O que, pode falar...
Ela não falou. Chegou perto do rapaz e aproximou sua boca da boca dele. Encostou seus lábios nos lábios dele, quando sentiu uma coisa viscosa invadindo sua boca e passeando por sua genviva, dentes e lígua. Aquela coisa conseguiu, sabe Deus como, tocar até mesmo o céu de sua boca. Tinha tanta saliva no meio daquele movimento melado que escorria pelo canto de sua boca. Durante o ato molhado, o rapaz lhe abraçou e lhe apertou tanto que ela perdeu o ar. Na tentativa de respirar, engasgou naquele mundo de saliva e, com sua boca colada na dele e sua língua presa por aquilo que mais parecia um peixe fora d'água a se debater dentro de sua boca, tossiu. Tossiu tanto que um pouquinho de catarro se desprendeu de sua garganta e foi parar no nariz do rapaz. Seus olhos encheram-se de lágrimas.
Chorando, ela deu as costas ao rapaz e voltou correndo para casa sem olhar para os lados. Estava com vergonha dele, das pessoas e, acima de tudo, morria de vergonha de si mesma.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

01


 As Missões Cupido são classificadas de acordo com sua importância. Essa importância é medida de acordo com a faixa etária humana. Amores infantis, missões de nível C. Amores adolescentes, missões de nível B. Amores adultos, missões de nível A. Há, porém, aquelas missões especiais, de nível E, que são os amores para a vida inteira.
Como você deve ter deduzido, um cupido iniciante começa com missões nível C e, a medida que é promovido, recebe missões de níveis acima. Não foi diferente com o 43. Sua primeira missão foi uma missão de nível C. Missão para a qual ele, definitivamente, não estava preparado.
Seus alvos eram dois colegas do terceiro ano do ensino fundamental. O garoto era gordinho, cabelos e olhos castanhos, nem alto nem baixo para seus nove anos de idade. A garota era magrela, cabelos claros, olhos claros, relativamente alta para seus também nove anos de idade. Ambos tinham um sorriso lindo.
43 tinha um bom plano. Colocou ambos na mesma sala de aula, assim, a convivência faria 90% de seu trabalho. Sim, claro, atração física é importante, mas ela acontece de duas maneiras distintas: à primeira vista, ou com a convivência. Quem nunca teve aquele amigo ou aquela amiga feia que depois de um tempo passou a ser 'beijável' e depois de mais algum tempo se tornou sua musa inspiradora? Sim, a convivência tem um poder impressionante. Com a convivência você passa a conhecer a pessoa, passa a se importar com a pessoa, passa a querer o bem dessa pessoa – e é aí que você é pego, é aí que o feioso fica bonito, é aí que o cupido age.
O dia estava fechado, cinza, com nuvens carregadas preenchendo todo o céu. Não era o dia mais proípício para seguir o plano, não aquele que o 43 traçou, mas ele não era exatamente o tipo de pessoa que sabia a hora de recuar, abortar uma missão e esperar as condições ideais. Não. Ele era muito ansioso.
Uma vez que a convivência tenha feito seu trabalho, o cupido precisa dar o toque final. Toque literalmente falando. Não, já falei, aquele papo de arco-e-flecha é pura baboseira. Em missões de nível C funciona assim: o cupido toca peito do rapaz que por sua vez precisa tocar a moça. Uma vez que tenham se tocado, a magia está feita, o casal está apaixonado.
A criançada estava na quadra poliesportiva fazendo aula de educação física. Jogavam um pega-pega diferente, onde a turma era dividida em dois grupos, o dos meninos e o das meninas. As meninas eram a 'polícia' e os meninos eram os 'ladrões'. O objetivo do grupo feminino era perseguir, prender e manter os meninos presos na área demarcada como prisão, e o objetivo masculino era manter-se livre da mulherada – sem saber, meninos e meninas praticavam aquilo que fariam para o resto da vida, dentro de um namoro ou de um casamento.
Como eu disse, apesar de tonto, 43 era um anjo inteligente. Tinha bons planos, mas tinha muito azar na execução dos mesmos. Antes de iniciar o procedimento, 43 analisou o perfil dos alvos e, com muita perspicácia, notou que seria mais fácil fazer com que a garota tocasse o garoto – oras, a ordem dos fatores não altera o produto, certo? Por isso mesmo o jogo de polícia e ladrão lhe parecia perfeito. Sendo assim, 43 se aproximou do garoto sem ser percebido, sem ao menos ser visto – anjos são vistos apenas quando querem – e o tocou no peito.
As meninas levavam vantagem no jogo, apenas 4 de 13 garotos estavam em liberdade. Mulheres, uma dica para vocês: unam-se. Os homens sempre se ajudam, até debaixo d'água! Você liga para qualquer amigo de seu marido e ele vai confirmar toda a história dos gnomos voadores que lhes abduziram por uma noite inteira. Sigam o exemplo dessas garotinhas, trabalhem em equipe, e seus homens ainda assim levarão vantagem, digo, e seus homens sempre estarão dentro de casa trocando a lâmpada, ou dizendo o quanto lhes amam.
O garoto era um dos que mantinham sua liberdade. Não por ser rápido, pois ele não era, mas justamente por ser uma presa fácil. As garotas, espertas, primeiro deram cabo das presas mais difíceis. Por estar livre, a obrigação segunda do garoto era libertar seus comparsas – sim, porque a primeira era continuar livre. Essas são as diretrizes do homem solteiro.
Ele não estava preocupado com a obrigação segunda, a primeira lhe era pesada demais. Pensava nisso quando notou que garoava, o que lhe deu um sopro de esperança. “Ótimo, o professor vai terminar o jogo por causa da chuva e nós vamos vencer!”. Foi quando seu sentido de proximidade lhe alertou que algo estava errado. Olhou a seu redor e viu que a garota, aquela mocinha meiga, doce, gentil, que sentava do seu lado todos os dias, lhe perseguia com uma expressão maníaco-obssessiva que aquela altura era novidade para ele, mas que ele notaria com o passar dos anos que é a definição de 'expressão facial feminina'.
“Cooooooorreeeeeeeeeeeeeeee!!!! “ gritou um de seus companheiros lá da prisão.
Quando deu impulso para seguir o conselho de seu amigo, o garoto sentiu seu mundo parar por um instante. Seu coração parou. Seus olhos se fixaram num único ponto. Sua vida inteira passou diante de seus olhos. Tudo o que percorrera até ali. Sem entender nada, ele foi pego por uma força muito mais forte que a sua. A força da gravidade. Sentiu-se suspenso no ar para logo sentir a dureza do chão.
Sem saber porque estava estatelado daquela forma no solo, o entendimento chegou com o desespero: olhou pra cima e viu que a garota que vinha em seu encalço não era capaz de parar por causa da quadra molhada, a mesma que lhe havia derrubado. Fechou os olhos e esperou pelo impacto que não demorou muito. O espetáculo de pernas e braços embolados voando por toda parte teria sido preocupante se não houvesse sido hilário – pelo menos era essa a opinião dos garotos da turma.
Sem dar-se conta dos próprios hematomas, a garota olhou nos olhos do garoto e perguntou:
  • Você tá bem? Se machucou muito?
Bem ou mal, a missão estava cumprida.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Prólogo

Tudo nesse mundo é regido pelo poder dos anjos. Cada coisa que acontece nesse mundo, cada evento na vida dos seres humanos é definido por Ele e executado pelos anjos. Sim, o destino existe. Sim, tudo está escrito antes mesmo de você vir ao mundo. Eu sei que você está se perguntando nesse exato momento: 'mas e o livre arbítrio?'. O livre arbítrio é algo que foi inventando para atrapalhar o trabalho dos anjos.
Ele era um anjo de classe baixa. Um Querubim. Sua função era juntar casais, o tipo de anjo que se conhece popularmente por cupido. Não, os cupidos não são aquelas criaturinhas de forma infantil, com um parzinho de azas e usuários de arco-e-flecha. Quando assumem a forma humana, assim como qualquer outra, se apresentam da maneira que lhes convém.
Seu supervisor você provavelmente já conhece, pois ele é muito famoso. Seu nome é Miguel. Sim, é aquele mesmo que mandou o Coisa Ruim para o andar debaixo naquela famosa batalha entre o Bem e o Mal. Em tempos de paz, Miguel toma conta do departamento do amor, onde segundo ele acontecem as coisas mais interessantes no mundo dos humanos.
Ele era novo na função, o que explica muita coisa. Não que ele fosse tonto, porque isso ele nunca foi, mas em matéria de amor é flagrante a diferença entre aqueles que viveram bastante coisas, e aqueles que se aventuram pela primeira ou segunda vez. Não seria diferente com ele por ser um anjo inteligente.
Sim, ele era um anjo inteligente. Mesmo com pouquíssima experiência no campo do amor, suas ideias era geniais. Seu problema não era exatamente o planejamento, mas a execução de seus planos. Ele era um tanto desajeitado. Não por ser tonto, porque isso ele nunca foi, mas por ser um tanto ansioso. Isso sim ele era, muito ansioso. Não que quisesse terminar logo o trabalho e voltar para casa, porque anjos não têm casa, mas porque queria ver logo a felicidade daqueles que deveria juntar.
Não sei se por ser inexperiente nesse ramo do amor, se por essa necessidade de ver a felicidade alheia, ou se por ser muito tonto – sim, ele era tonto – ele protagonizou a história mais conhecida entre os Cupidos, uma das mais conhecidas entre os anjos do Céu, e também entre os do Inferno.
Ele fez coisas que até Deus duvidou, literalmente.
Diz-se que por amor as pessoas são capazes de tudo. Ele mostrou que não só as pessoas, mas também os anjos, são capazes de tudo em nome desse sentimento que nem mesmo o Criador consegue explicar. Essa é a história que eu vou lhes contar, a história do Cupido 43.